Domingo, 27 de Setembro de 2020
Polícia

Empresa destrói lavoura do MST destinada à doação de alimentos durante a pandemia no Paraná

Dois tratores e 14 homens, alguns encapuzados da Usina Sabarálcool, destruíram as lavouras em fase de colheita plantadas por 50 famílias do Movimento Sem Terra (MST), alimentos seria doados à famílias carentes no interior do Paraná

Publicada em 04/07/20 às 19:58h - 88 visualizações

por Tribuna dos Vales/Com informações de Ricardo Kotscho/Colunista do UOL


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Um dos proprietários da área, que pertence à Usina Sabarálcool, acompanhado de 14 homens, alguns encapuzados, e de dois tratores, deu sentença para que seus homens destruíssem as lavouras em fase de colheita e que foram plantadas pelas famílias que morava  (Foto: Divulgação/MST)

Sabe aquela noticia que você ainda viu nas grandes mídias brasileiras. Ela é uma cena real de um outro Brasil, aquele distante dos holofotes das TV’s e dos click’s mágicos da lentes fotográficas. Faremos agora uma viagem através de um artigo publicado pelo jornalista Ricardo Kotscho, colunista do portal UOL.

Segundo o artigo, pelo menos 50 famílias de agricultores do acampamento rural no interior do Paraná, nesta sexta-feira (3), os trabalhadores rurais do acampamento Valdair Roque, de Quinta do Sol, interior do Paraná, que plantam hortaliças para doar a famílias carentes durante a pandemia, foram surpreendidos pelo extremo da presunção humana e ausência de solidariedade de pessoas, que ainda ousam serem denominados de humanos. As famílias que tiveram suas vidas marcadas fazem parte do Movimento Sem Terra (MST).

Nas primeiras horas da manhã, o sol nem havia nascido direito, Victor Vicari Rezende, um dos proprietários da área, que pertence à Usina Sabarálcool, acompanhado de 14 homens, alguns encapuzados, e de dois tratores, deu sentença para que seus homens destruíssem as lavouras em fase de colheita e que foram plantadas pelas famílias que moravam no local.

Ainda de acordo com a publicação, no mesmo dia, a Horta Comunitária Antonio Tavares, das comunidades Terra Livre e Mãe dos Pobres, doaram 1500 quilos de alimentos orgânicos a 35 famílias da Aldeia Indígena Alto Pinhal e ao Lar dos Idosos João Paulo II, em Clevelândia. Enquanto no Jornal Nacional são divulgadas as ações das grandes empresas, os anônimos do MST desde o dia 9 de março, no início da pandemia no Brasil, uma centena de acampamentos e assentamentos do MST no estado já doaram 246 toneladas de alimentos, 6.400 marmitas e 600 máscaras de tecido, feitos pelas mãos das agricultoras.

Todos os produtos são distribuídos para milhares de pessoas, em 126 municípios que possuem acampamentos ou áreas de assentamento do movimento (MST): grãos, tubérculos, frutas, legumes, verduras, mel, ovos, pães, bolachas, queijos, galões de leite, uma feira completa com produtos da melhor qualidade. Essas doações não aparecem no Jornal da Record ou da Band, mas são a salvação da lavoura para moradores das periferias, índios, idosos e desassistidos do poder público e dos empresários, que preferem destruir alimentos e exterminar sonhos de um Brasil melhor.

A empresa que destruiu a lavoura na Fazenda Santa Catarina, responde a 964 ações trabalhistas, somente na comarca de Campo Mourão. Tardiamente a policia chegou ao local e após negociação e os tratores e capangas deixaram o local. As famílias seguem com medo de sofrer um novo ataque e não ganharam nenhuma garantia que podem voltar a plantar.

Existe uma recomendação do Ministério Público Federal (MPF) ao Incra, desde 2018, para que intervenha junto a esse conjunto de ações e execuções trabalhistas e compre a área para destiná-la à reforma agrária em benefício dos trabalhadores acampados, mas até o fechamento dessa edição, não ouve avanços nas ações.

O advogado das famílias, Humberto Boaventura, chama a atenção para a gravidade do ataque, diante do contexto da pandemia e do aumento acelerado de óbitos e casos de Covid-19 no Paraná.

"Essa ação feita hoje, que atinge diretamente a paz social das famílias na região, também é uma afronta às medidas de combate à pandemia que está instalada em nosso estado. Há um decreto do Tribunal de Justiça do Paraná suspendendo os despejos por tempo indeterminado, enquanto durar a pandemia", disse.

A horta comunitária Quinta do Sol, existe desde 2015 e foi inaugurada em maio desse ano, e segundo o coordenador do acampamento, Paulo Antonio Fagundes, havia um reforço com o compromisso em avançar na produção para ajudar outras famílias.

"Tem muita gente desempregada e está fazendo falta a comida. Então vamos contribuir com eles, estender a mão pra que eles também tenham o alimento do dia a dia", ressaltou.

As famílias beneficiárias destes alimentos, terão que esperar mais tempo, até que uma nova lavoura seja semeada e colhida sem a ameaça dos tratores, dos donos da usina ou de qualquer outra natureza, incluindo os gafanhotos.

Foi durante uma reunião virtual do Fórum por Direitos contra a Violência no Campo, que reúne 50 representantes de organizações da sociedade civil e do Poder Público, na mesma sexta-feira sombria, que foi apresentada a denúncia da destruição das lavouras, ela será protocolada no Ministério Público Federal.

A Usina Sabarálcool não quis se manifestar.

Esta matéria tem informações da jornalista Ednubia Ghisi, assessora de imprensa do MST do Paraná, que enviou as informações ao jornalista do UOL.




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